Sr. Antônio Congo: um oleiro de histórias - "Série o que vivi, ouvi e senti na história"



Nascido nas Pedras Altas, no dia 28 de agosto de 1934, na Fazenda de “Quinca Pedrosa” (Joaquim Pedrosa) onde habitou até os 16 anos de idade, Antônio Francisco de Almeida, mais conhecido por Antônio Congo é hoje o nosso personagem da "Série o que vivi, ouvi e senti na História".
Bem-humorado, com ótima lembrança dos fatos vividos e atencioso para conosco, passamos a seguir alguns dos temas que abordamos em nossa conversa com o Sr. Antônio Congo em sua residência.

Imagem 1 - Sr. Antônio Congo, em 2016
O trabalho em Curtumes...
Saindo das Pedras Altas, o Sr. Antônio Congo foi trabalhar no Curtume Santa Adélia, do Sr. Ismael Mahon, que ficava em Bodocongó, Campina Grande (PB) onde trabalhou de 1950 até 1958. Deixando este Curtume foi trabalhar em outra firma, esta, do Sr. Manoel Francisco da Motta, mais conhecido como o “Curtume Motta”, que tinha a matriz também no Bairro de Bodocongó.
O Curtume Motta, antes de ter a sede em Barra de São Miguel, se instalou no Sítio Boi Bravo, por volta de 1958 a 1960. Seu Antônio era o “mestre de trabalho”, o “envernizador”, que preparava as tintas que vinham de Campina Grande, em depósitos de 200 litros. A fazenda “Boi Bravo”, pertencia ao Sr. Ismael Mahon e este tinha os galpões que funcionava o Curtume. Ao solicitar este espaço, os Motas se viram obrigados a trazer o curtume para a cidade.
Assim, Manoel Francisco da Motta além do curtume de Campina Grande, também tinha um Curtume em Barra de São Miguel. Aqui, em 1960, era uma “envernizaria”, onde o Couro, já “aparelhado” era trazido de Campina Grande e o Sr. Antônio, que era o “cabeça”, o “mestre da obra”, administrava o empreendimento. O couro era “tinturado” e “envernizado”. Trabalhavam mais de 20 homens sobre a orientação do Sr. Antônio Congo.
Na zona urbana, o Curtume era localizado na hoje conhecida rua São Miguel em um prédio onde já tinha sido antes uma “fábrica de caroá”. O prédio era do Sr. João Pinto da Silva, que arrendou para “pessoas de fora” instalar esta fábrica. A população de Barra vendia o agave para a fabricação das fibras do Caroá. Isto teria ocorrido, segundo o Sr. Antônio, nos anos de 1930 a 1934, pois é uma história que só ouviu falar e lembra que Amaro Congo, seu irmão, chegou a vender caroá para esta fábrica.

Imagem 2 - Prédio onde funcionou o Curtume e a Olaria
O trabalho na Olaria
No ano de 1962 o Curtume fechou e o Sr. Antônio ficou desempregado. Assim, o mesmo começou a trabalhar como servente de batedor de telha, onde trabalhou por 25 anos até se aposentar. A "Olaria" funcionou até aproximadamente o ano de 1987.
As telhas do Sr. Antônio não eram só vendidas dentro de Barra de São Miguel. Também eram comercializadas para: Riacho Fundo, São Domingos, Santa Cruz do Capibaribe, Taquaritinga do Norte, Campina Grande...
Imagem 3 - Telhado de casa em Barra de São Miguel
Lembra que se especializou apenas na confecção de telhas, daí o curtume, passou a ser conhecido como a “Olaria”. Nesta época, quem “batia tijolo” era “Manoel Grosso”, “Cessa de Ramiro” e outros.
O material das telhas do Sr. Antônio vinha da fazenda de Otávio Cabral, onde hoje pertence a Djalma, era de lá que vinha o barro para as telhas. A água vinha de atrás das ruas, em especial na “cacimba de João Duardo”, a água era “em cima da terra”. Lembra que diminuiu a água com a chegada da algaroba à Barra, trazida por Ismael Mahon (no terreno dele, no Boi Bravo), na rua, quem trouxe foi Otávio Cabral, há mais ou menos 50 ou 60 anos.

O casamento e a moradia do Sr. Antônio Congo
O Sr. Antônio Congo casou-se no ano de 1958 com Tereza Pereira da Silva, natural de Barra de São Miguel, filha de João Benízio, que morava atrás da serra. Com a mesma construiu uma família de 05 filhos. Depois de casados foram morar na Rua São Miguel. Com o passar do tempo o Sr. Antônio construiu sua casa na “Rua Nova”, que naquele tempo só tinha três casas, que eram de: Manoel Grosso, Manoel Benjamin e a própria do Sr. Antônio Congo. O restante da região era uma grande "mata de favela", "palmatória". Lembra que bateu tijolo na “grota” perto da casa de “Zé pequeno” (próximo ao Posto de Gasolina). Também batia tijolo na vazante por trás da casa de Vavá de Zé Pinto.

Imagem 4 - Sra. Tereza e o Sr. Antônio
A Igreja e o Cemitério antigo de Barra de São Miguel  
Segundo o Sr. Antônio Congo, a igreja de Barra de São Miguel sempre foi do tamanho que está agora, a diferença é só a remodelagem que foi feita ao longo do tempo e também por dentro, onde derrubaram ela e reformaram. O principal responsável da reforma foi o Dr. Hélio.
Ao lado da igreja de Barra de São Miguel, existia um cemitério que viria a ser derrubado pelo Sr. Cacildo Guedes. Quando foram cavar as colunas da igreja encontraram “ossos velhos” e “botão de roupas”. Por sua vez já existia outro cemitério onde as pessoas já estavam sendo enterradas lá.
Lembra que a parede da frente do cemitério era muito alta e estava inclinada, "uma empena só no meio da rua", assim, seu Cacildo mandou derrubar.

O “Casarão” da Prefeitura
O casarão da atual prefeitura de Barra de São Miguel foi construído pelo Sr. Ismael para ser sua casa de morada. Sr. Antônio lembra que “trabalhou no esqueleto das colunas” e ajudou na construção, pois as ferragens eram preparadas no prédio do Curtume, que o mesmo administrava.
O casarão foi a primeira construção de primeiro andar dentro de Barra de São Miguel. Os engenheiros e parte dos pedreiros eram de Campina Grande. Este prédio foi construído por volta do ano de 1956 para 1957.

O Açude do Bichinho
A construção desse açude também faz parte da memória do Sr. Antônio. Ele lembra da "cavação" do alicerce da parede do Açude. Usava-se máquinas e caçambas para a construção do Açude. Apesar de não estar presente, lembra do dia que o Açude Riacho do Bichinho foi inaugurado.

Festas Típicas de Barra de São Miguel
As festas típicas de Barra de São Miguel, segundo o Sr. Antônio, eram essas: Festa de São Miguel, Festa de São Sebastião, Festa de Nossa Senhora da Conceição, Santa Luzia e a Festa de Santo Antônio, que era em Barra e também no Sitio Pinhões. O mês de maio por sua vez não se tinha festas, nem missa, só a novena que era tradição.           

O Cruzeiro de Barra de São Miguel.  
Segundo o Sr. Antônio Congo, o Cruzeiro de Barra de São Miguel se localizava na frente da Igreja e foi tirado e levado para a serra no ano de 1944 (Dúvida).
A primeira vez que Frei Damião veio para Barra de São Miguel foi quando fizeram a procissão com a Cruz para colocar no cruzeiro da serra. Lembra que participou desta procissão. Também recorda que foi derrubado um coreto de palha de coco, que foi construído pelos pedrosas e ficava no meio da praça, mais ou menos onde hoje é o coreto central.
Nesta vinda de Frei Damião foi uma alegria grande, até com banda de música de outros lugares e foi uma bela Festa na cidade.

Feira de Barra de São Miguel
O Sr. Antônio Congo avalia que hoje contamos com mercados e mercearias mais nem sempre foi assim. Antigamente se comprava alimentos na “feira livre” em Barra de São Miguel, com “caixotes de madeiras” juntamente com “bancos” e “cadeiras”, que eram utilizados ao invés de balcões.
Os vendedores eram da Barra e também de fora da região. As feiras eram realizadas na quarta-feira e depois mudaram para o dia de Domingo. As pessoas achariam melhor no sábado, porém Sr. Ismael, "para não perder nenhum dia de trabalho", achou melhor no domingo.

Sr. Ismael Mahon
Para o Sr. Antônio Congo, Ismael Mahon era uma figura muito “forte” dentro de Barra de São Miguel, de tal forma que o próprio se esforçou para fazer com que a Barra se tornasse uma cidade. Ele tinha uma questão com o Sr. Ernesto e por isso trabalhou para passar a Barra à cidade.
O governador Pedro Gondim veio para a Barra de São Miguel e seu Ismael se candidatou para a Política. Na primeira eleição ele perdeu para o Sr. Aurélio e na segunda ele ganhou.
Lembra que serviu à mesa de Pedro Gondim na fazenda, quando este veio aqui para a Barra trazido pelo Sr. Ismael.

Carnaval de Barra de São Miguel
O carnaval era realizado com muita animação e o Sr. Antônio Congo também se fazia presente. Lembra que um dos foliões se chamava “Caboclo Justino” que animava as festas do carnaval de Barra de São Miguel. Lembra também de “Zezé de Joca”.

Grupo do Estado e o acesso à educação
O grupo do Estado começou no ano de 1948 a 1950. O Sr. Antônio não teve o prazer de ir pra uma escola, pois seu pai, o Sr. Francisco Congo de Almeida, era vaqueiro de uma fazenda e suas condições financeiras não ajudava muito para que ele mandasse os filhos para à escola. Assim, dos 09 filhos da casa, 04 deles estudaram e os outros 05 ficaram sem estudar. Sr. Antônio por sua vez aprendeu a escrever através de jornais que ele pegava pela rua.

O primeiro carro de Barra de São Miguel
O Sr. Antônio Congo nos ensina que para ir à cidade de Santa Cruz naquela época era através de cavalos ou até mesmo a pé. O primeiro carro a se chegar na Barra foi o Caminhão do Sr. Zé Pedrosa. Lembra que naquela época o peso do carro era mínimo, podia com mais ou menos de 1.000 até 2.000 quilos. O caminhão possuía 4 rodas apenas, duas na frente e duas atrás. Esta história aconteceu quando ele tinha por volta de 4 anos de idade, mas lembra ainda.

Imagem 5 - Nosso registro ao lado do Sr. Antônio Congo
Vida na Fazenda e o comércio de algodão.
A vida do Sr. Antônio na fazenda era: colher algodão, plantar milho e limpar mato. Nesse tempo se tinha muito algodão que era produzido nas fazendas. Este algodão vinha pra Barra e daqui mandava para a SAMBRA em Campina Grande.
Em Barra de São Miguel quem comprava o algodão era o Sr. João Pinto, que comprava ainda na “folha”. Lembra que as roupas da festa de São Miguel eram adquiridas antes, ele pagava com o roçado ainda plantado.
Na fazenda também eles criavam animais

Seu pai e seus Irmãos
Os pais do Sr. Antônio Congo eram: o Sr. Francisco Congo de Almeida, natural de Pernambuco, do Minguaiu, e a Sra. Maria Filismina da Conceição.
O Sr. Antônio Congo lembra que seu pai nunca saiu da fazenda, e viveu lá até morrer. Ajudou a criar Zé Pedrosa, Pedrosinha. Nesta época, Quinca Pedrosa ainda era solteiro. Seus irmãos eram: Amaro, Severina, Maria, José, Neves, Filomena, Penha e Sebastião.

Muitas outras histórias do Sr. Antônio Congo ainda estão por ser contadas. Por hora, deixamos o nosso agradecimento a sua atenção e colaboração com o conhecimento do passado de Barra de São Miguel, por meio de sua trajetória de vida.

Entrevista concedida no dia 21 de maio de 2016, transcrita, em parte, por Rodrigo Vasconcelos em 2017.

João Paulo França, 15 de abril de 2017.

Fonte:
Entrevista e acervo do Sr. Antônio Francisco de Almeida (Antônio Congo)